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Conjuntura Internacional do segundo semestre de 2026, uma visão sobre a Defesa

Conjuntura Internacional, uma visão sobre a Defesa

A conjuntura internacional incidente sobre a Europa e Portugal no segundo semestre de 2026 é marcada pela persistência dos conflitos do Leste da Europa e do Médio Oriente, para o efeito melhor considerado Próximo Oriente. Conflitos cuja duração surpreende as previsões iniciais. Os “mercados” não previram, aquando do início da invasão de larga escala da Ucrânia pela Rússia em fevereiro de 2022, que o conflito durasse, pelo menos, os quatro anos e meio com que já conta. Nem que as operações militares dos EUA e de Israel contra o Irão, ainda que intermitentes, se estendessem, pelo menos, ao longo do ano com que já conta, desde a primeira ofensiva em junho de 2025. Mais previsível ao longo dos últimos anos seria o crescente agudizar da Guerra Fria geoeconómica entre EUA e China, mas era menos previsível que os EUA entrassem em disputas tarifárias e de restrição tecnológica e agressiva concorrência por recursos com os seus mais antigos e fiáveis aliados.


A mais recente Cimeira da NATO, em Ancara, Turquia, a 7 e 8 de julho, confirmou a mobilização de crescentes recursos financeiros para reforço das capacidades militares e da produção industrial de defesa dos aliados europeus, com vista a uma repartição mais equilibrada dos encargos entre os europeus e os EUA. O significativo investimento em defesa é desde logo impulsionado pelo continuado compromisso em fornecer à Ucrânia 70 mil milhões de euros em equipamento militar, assistência e formação durante 2026 e novamente em 2027. É neste contexto que foi reafirmado o compromisso assumido na Cimeira de Haia de 2025, de afetar, até 2035, 5% do PIB de cada Estado-membro da NATO à defesa, com pelo menos 3,5 pontos percentuais (pp) para despesa direta em defesa e os restantes 1,5pp em despesas mais amplas relacionadas com a defesa e a segurança, como investimentos em infraestruturas críticas.


Tudo isto junto é a mesma dinâmica, a de diminuição dos encargos dos EUA e aumento dos encargos dos europeus, de ‘pôr’ os europeus a custearem e a garantirem a sua própria defesa, a começar pelo esforço de guerra ucraniano contra a agressão russa. Não é episódico, não é um momento coincidente com a atual presidência norte-americana de Donald Trump. É uma tendência que vem do fim da ameaça soviética há trinta anos e foi até melhor consubstanciada há quinze anos por Hilary Clinton, então Ministra dos Negócios Estrangeiros da presidência de Barak Obama, com o “pivot para a Ásia”. Esta “viragem para a Ásia”, mais tarde semanticamente mitigada em “reequilíbrio para a Ásia”, preconiza uma reorientação da atenção económica e militar dos EUA para a região da Ásia-Pacífico, face à China e num momento em que o centro económico do mundo deixou de ser transatlântico e passou a ser transpacífico.


É, também, esta a dinâmica que canaliza recursos e novas oportunidade de cooperação intraeuropeia e da Europa com o mundo no investimento em defesa.


A ideia de que a NATO (1949-…), herança da Guerra Fria entre os EUA e a URSS, se mutará ao sabor da geopolítica, mas é eterna, contrasta com a história de nascimento, vida e morte das suas congéneres do então ‘cordão sanitário’ em torno da URSS no pós-Segunda Guerra Mundial: a CENTO (1955-1979), cobrindo Médio Oriente e Ásia Central; e a SEATO (1954-1977), cobrindo o Sudoeste Asiático. Não é só a defesa europeia, da UE mais Reino Unido e Noruega, que procura maior autossustentabilidade, ainda que como pilar europeu da NATO; também noutras regiões vemos novas ‘geometrias’ surgir na sequência da retração global e abordagem transacional dos EUA. O novo ‘quadrilátero sunita’, em afirmação no Médio Oriente, que junta o segundo maior membro da NATO, a Turquia; a potência nuclear muçulmana, o Paquistão; o maior país árabe, o Egipto; e o maior exportador de petróleo do mundo e guardião dos principais locais sagrados do Islão, o Reino da Arábia Saudita. Sendo respetivamente primeiro, segundo, terceiro e quinto países muçulmanos em poder militar. Um dos antagonistas, o Irão, seria o quarto.


A conjuntura atual é de constrangimentos logísticos, seja no trânsito de bens e serviços, seja no acesso a matérias-primas críticas e terras raras, seja no acesso a capital e sobretudo tecnologia. Mas o que é mais evidente é a crise energética. Nomeadamente, na nossa perspetiva, a crise energética da Europa, que num movimento de afastamento quer do carvão, quer do nuclear, estava cada vez mais dependente das importações de gás natural como fonte firme de produção de eletricidade para compor o mix com as, felizmente, cada vez mais dominantes ‘renováveis’ que, não obstante grandes evoluções, continuam a ser pouco densas, intermitentes e custosamente armazenáveis. E essa importação estava, até 2022, excessivamente concentrada em fornecimentos por gasodutos diretos da Rússia aos países da Europa Central, como, em termos muito favoráveis, à Alemanha. Sem a flexibilidade que os terminais marítimos de gás natural liquefeito permitem ao importador, como é o caso da Península Ibérica, em que a predominância da importação por meio de navios metaneiros permite a Espanha e a Portugal diversificar fornecedores e até substituir um país exportador por outro, em caso de falha de fornecimento, por exemplo devido a crise geopolítica. Demonstração visível no preço da eletricidade à indústria, num momento em que a indústria, e as economias e as sociedades em geral, se eletrificam e idealmente descarbonizam. De 2007 a 2019, ou seja, desde a criação do Mercado Ibérico de Eletricidade (MIBEL) e com o arrancar dos grandes investimentos em novas fontes de produção elétrica renovável, o preço da eletricidade à indústria no MIBEL foi 14% mais barato que na média da UE, mas 10% mais caro do que na Alemanha. De 2020 a 2022, com as dificuldades logísticas da COVID-19, o agudizar do conflito com a Rússia e o crescente peso da eletricidade verde no mix ibérico, a vantagem do MIBEL face à média da UE alargou para 19% e a relação com a Alemanha inverteu-se radicalmente, passando da desvantagem de -10% para uma vantagem de 27%. Nos últimos três, 2023 a 2026, com a consolidação da eletricidade ‘verde’ na península, a vantagem do MIBEL cresce para 27% face à média UE e 33% face à Alemanha. O que nos confere hoje uma importante vantagem competitiva no seio da UE para a atração de indústrias energívoras, agora eletrointensivas e que se querem ‘verdes’, descarbonizadas, como são, por exemplo, a generalidade das indústrias de produtos de base e também de defesa.


A Europa virou-se então para mais gás natural proveniente do Médio Oriente e de novos produtores, com destaque para os EUA, que há cerca de dez anos começaram a exportar gás natural (e petróleo) e estão a desenvolver enormes capacidades de liquefação e exportação transoceânica de gás natural liquefeito. Uma crescente capacidade geopoliticamente exacerbada pelas novas realidades em países sancionados e, ou, intervencionados como Venezuela, Irão e claro Rússia, não desconsiderando todas as disrupções em curso no Médio Oriente e as mudanças na Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), com as recentes saídas do Catar, de Angola e dos Emiratos Árabes Unidos. Sendo cumulativamente cada vez mais destacada a liderança dos EUA na investigação, desenvolvimento e inovação em reatores nucleares, incluindo os novos SMRs (Pequenos Reatores Modulares), e seus combustíveis.


Assim, e ao contrário da professada dinâmica de autonomização da Europa face aos EUA, o que se verifica, na realidade, é um somar, à dependência de segurança e defesa, desta crescente dependência energética e ainda tecnológica. Basta pensar nas atuais maiores empresas do mundo, todas grandes tecnológicas globais de origem norte-americana e que operam na Europa, sem que haja entraves e desenvolvimento de alternativas autóctones, como fazem a China e a Rússia. Os gigantes dos EUA nos serviços digitais, software e IA, como Google, Microsoft, Meta, Cisco, Oracle, OpenAI ou Palantir. Ou a AWS, na interseção com a economia partilhada do comércio eletrónico, da mobilidade e do alojamento, como Amazon, Uber e Lyft e Airbnb. As empresas de hardware, sistemas operativos proprietários e semicondutores, Apple, NVIDIA, Broadcom, AMD, Micron, Applied Materials. E claro as empresas de Musk, como a Tesla, lider em energia, ou a SpaceX, em exploração espacial, e a Starlink em telecomunicações por satélite.


É neste contexto que a UE procura maior autonomia estratégica face a Rússia, à China e até aos EUA. Nas energias e nas matérias-primas críticas e terras raras, na tecnologia e na produção industrial, na defesa. Não menos seguindo modelos de planificação e incentivos praticados pelos outros dois gigantes económicos, China e EUA.


A começar pela descarbonização e a redução da dependência de combustíveis fósseis importados, com o Fit for 55 e a nova Diretiva Energias Renováveis (RED III) em 2021. O Plano REPowerEU em 2022 e Quadro Temporário de Crise e Transição em matéria de Auxílios Estatais (TCTF) em 2023, face à crise energética decorrente da invasão russa da Ucrânia.


A procura de reindustrialização verde, autonomia face à China e a construção de capacidade tecnológica própria face até aos EUA com Regulamento Europeu dos Circuitos Integrados (European Chips Act) em 2022; o Regulamento Matérias-Primas Críticas (CRMA), o Regulamento da Indústria de Impacto Neutro (NZIA) e a Plataforma das Tecnologias Estratégicas para a Europa (STEP) em 2023. O Quadro para Auxílios Estatais à Indústria Limpa (CISAF) em 2025; e o Regulamento Acelerador Industrial (IAA) e o Plano de Ação para a Eletrificação (EAP), ambos já de 2026.


No plano da defesa, vigora o Fundo Europeu de Defesa (EDF) no âmbito do Quadro Financeiro Plurianual 2021-2027, dotado com quase 8 mil milhões de euros, e que veio juntar os programas-piloto iniciados em 2017: Programa Europeu de Desenvolvimento Industrial na Defesa (EDIDP) e Ação Preparatória para a Investigação na Defesa (PADR). Com a Bússola Estratégica para a Segurança e Defesa (SC) de 2022 a definir as prioridades estratégicas da UE até 2030. Em 2023, o Instrumento para o Reforço da Indústria Europeia da Defesa através da Contratação Pública Conjunta (EDIRPA) e o Regulamento de Apoio à Produção de Munições (ASAP) vieram implementar as prioridades identificadas pela Bússola Estratégica em resposta às necessidades imediatas criadas pela guerra na Ucrânia, ainda que com dotações modestas de 300 e 500 milhões de euros respetivamente. Em 2024 surge a Estratégia Europeia para a Indústria da Defesa (EDIS) e o seu Programa Europeu para a Indústria da Defesa (EDIP) com uma dotação de 1,5 mil milhões de euros, que desenvolve as bases de uma política industrial de defesa permanente, também em decorrência da Bússola Estratégica. Em 2025, a Ação para a Segurança da Europa (SAFE) escala o financiamento, prevendo até 150 mil milhões de euros de empréstimos aos Estados-membros, integrando o ReArm Europe / Readiness 2030 do mesmo ano, que aponta, entre possibilidades de investimento público e privado e maior flexibilidade orçamental nacional dos Estados-membros, a 800 mil milhões de euros potenciais. Em corolário, a Comissão Europeia propôs, já em 2026, a Ação para a Aceleração da Transformação Industrial da Defesa (AGILE), um pacote de medidas que visa promover a indústria europeia de defesa simplificando procedimentos, licenciamentos e acesso a financiamento.


Menção ainda para o Mecanismo Interligar a Europa – Mobilidade Militar (CEF – Military Mobility), de adaptação de infraestruturas transeuropeias de transportes à dupla utilização civil e militar. O CEF é hoje o programa de financiamento europeu responsável pelas três redes: a Rede Transeuropeia de Transportes (TEN-T); a Rede Transeuropeia de Energia (TEN-E) e a Rede Transeuropeia de Telecomunicações (eTEN).


Este é o momento de apostar no desenvolvimento de tecnologias e produtos de duplo uso, não só a pensar em sistemas de armas e equipamentos para forças armadas, como também nas duas demais áreas críticas, da energia e das tecnologias de informação e comunicação. Na Europa e nos seus aliados tradicionais, seja da América do Norte, do Médio Oriente ou do Leste da Ásia e Oceânia.


Filipe Santos Costa
Presidente do Conselho Português do Movimento Europeu
Setembro 2026